TEXTOS

Das boas heranças colhidas

O senso comum admite polarizações como a de que alguns artistas surgem para romper com os padrões estabelecidos, questionar, inovar. Outros, para conservar, reproduzir, manter. Os primeiros estariam à frente, os segundos, na retaguarda. Essa idéia coloca os extremos em oposição.

Entretanto, é preciso considerar que, mesmo havendo os que conduzem o carro das transformações e os que nele seguem, eles se alimentam entre si, criando um tecido rico, muito mais complexo e interativo que pretendem as polarizações.

Assim é que artistas das vanguardas do inicio do século XX, como os cubistas Picasso e Braque, modificam a pintura pela observação dos volumes de mascaras africanas, objetos da cultura tradicional. É como se os artistas estivessem ligados por ativismos às mais remotas realizações humanas.

Aquilo que chamamos de cultura popular tem servido de fonte a artistas de diferentes gerações que, no encontro com matrizes tradicionais, renovam o próprio repertório e, por conseguinte, o gênero em que se exercitam, expandindo o campo em que atuam em proporções inimagináveis, em fluxos e refluxos infinitos.

Acreditamos que isso ocorre aos dois artistas aqui expostos. Eles foram tocados por temas e formas que impregnam o imaginário nordestino e se expressam na xilogravura popular, o que lhes possibilitou transformar o próprio trabalho e o campo em que atuam.

No que diz respeito a Gilvan Samico, o encontro se dá no inicio dos anos 1960. As obras aqui reunidas integram o acervo produzido pelo artista entre 1960 e 1966, quando ele, gradativamente, migra de gravuras de estilo realista, desenvolvendo obras cada vez mais claras, em que o cenário sombrio anterior cede aos espaços gráficos brancos, de poucos elementos, e à temática intemporal das narrativas populares. Hoje, olhando em retrospectiva, percebemos a importância daquele momento na trajetória do artista, em que, aos se apropriar de elementos da tradição, criou linguagem pro[ria que o distingue entre os xilogravadores brasileiros.

Apontamos como marco desse ponto de virada na obra do artista a gravura O rapto do sol (1960)Dominada por uma radiante sereia, que, sobre sua imponência, tem apenas o Sol que deseja roubar, a gravura irradia luz, força e energia.

Assim como ocorreu com Samico, Derlon também buscava novos repertórios para sua técnica, à qual vinha se dedicando sob influencia do grafite norte-americano. Há cerca de quatro anos, o artista encontrou na xilogravura nordestina fonte capaz de lhe instigar novas formas e temas. Desde então, abriu o dialogo entre matriz duradoura da gravura em madeira e a arte efémera de gravar com tinta os muros da cidade.

Por analogia a O rapto do Sol, encontramos nos grafits de Derlon a figura mitológica da mulher-peixe, pintada em dois momentos 2008, frutos de andanças de irmãos grafiteiros em Olinda. Uma, intitulada, Sereia, alegra a ruína de uma fachada na Rua do Sol. Outra, sem título, foi realizada na companhia dos artistas Kboco e Arbos, em muro da segunda travessa da Ladeira 15 de Novembro. Olhando os grafites de Derlon, remetendo-nos às capas dos folhetos de cordel, em que imagens simples comunicam imediatamente o conteúdo da obra.

A esse respeito, devem atentar à comunicação direta e precisa estabelecida pelas gravuras de Samico e os grafites de Derlon, capazes de serem admirados e entendidos por qualquer audiência, atributo comum à literatura e às gravuras populares. Essa habilidade em se fazer entender deve-se sobretudo ao conteúdo e às formas simples, mas também às qualidades do meio.

As ilustrações surgiram em capas dos folhetos no final do século XIX com o intuito de atrair o leitor. Aqueles que não eram alfabetizados, ou que pouco dominavam a leitura, público-alvo daqueles impressos, eram informados do conteúdo pela figura. Processo semelhante se deu na imprensa novecentista, em que as charges e caricaturas – com seu peculiar humor satírico e debochado – levavam informação, opinião e critica ao publico iletrado. Estava ali estabelecido o espaço público, e agora moderna.

John Downing conta que, naquele século, foi difundida a prática de expor charges e caricaturas nas vitrines das lojas, o que, não, raro, provocava aglomerações e reações coletivas de riso e escárnio, tendo como assunto situações vexatórias de figuras de poder na sociedade. Quem não podia comprar obras ao menos poderia aprecia-las e com elas compartilhar opinião. O mesmo se dá nos folhetos de cordel, que em sua variadas tendências orientam a opinião pública, informam, educam, divertem. Podemos dizer que o mesmo ocorre no grafite contemporâneo que, ao ocupar os espaços em desuso com imagens e mensagens, convoca a população a aspectos que merecem atenção e critica, propagando idéias e opinião nas ruas da cidade.

No que se diz respeito aos artistas aqui reunidos, o poder comunicativo de suas obras não se deve tanto à sátira ou à critica social, mas ao seu caráter fantasioso, poético e atemporal. As narrativas de Samico e Derlon se referem a história sem tempo nem lugar.

Ao desenharem cenas fantasiosas – inspiradas nos clássicos de cordel, em leituras, biblicas, lendas, mitos, romances, folhetins, contos de fadas e de aventuras -, os artistas atualizaram o fabulário nacional, criando novos acervos que poderão reverter aos lugares que lhes serviram de referencia ou suscitar apropriações em variados campos, reconduzindo-nor à idéia de fluxos e refluxos infindáveis.

Adriana Dória Matos

Curadora da exposição Narrativas em Madeira e Muro (Samico & Derlon)

Derlon

O traço de Derlon faz suas obras parecerem xilogravuras. Ele pode usar pincel, como os pintores, ou spray, como os grafiteiros, mas elas sempre dão a impressão de terem sido feitas com a coifa gravando em relevo a superfície da madeira. O artista consegue esse resultado explorando o contraste, de modo que as linhas pretas parecem cavadas no branco e vice-versa. Da arte de rua – grafite, lambe-lambe –, seu desenho traz a variedade de suportes e a tendência a explorar a arquitetura e o espaço urbano, adquirindo uma dimensão mural. Ele atualiza a xilogravura popular do Nordeste, misturando seres alados com aparelhos de som, de TV e ícones da cultura pop como o Mickey Mouse (a convite dos estúdios Disney) e sua metamorfose, o Macunamouse.

O artista do Recife mostra em exposição individual no Rio de Janeiro essa dinâmica entre a concentração na linguagem xilográfica do seu desenho e a diversidade de meios: pinturas sobre madeira; sobre objetos; um painel gigante na parede externa da galeria e uma série de lambe-lambe sobre jornal espalhada nas proximidades, em Copacabana.

Outro aspecto notável do trabalho de Derlon é que ele não cria matrizes, como na xilogravura; sua relação é diretamente com a imagem gráfica. Assim ele pode promover, esteticamente, o encontro de técnicas antigas e novas de reprodução: a imagem digitalizada e vetorizada pode ser impressa em adesivos, camisetas, ampliada etc. Com seu traço de xilogravura, ele produz um cruzamento original e impactante de um processo milenar de gravação ligado à iconografia regional do Nordeste com o mundo globalizado da imagem.

Nessa exposicão, figuras nobres de cartas de baralho, seres humanos e animais fantásticos, torres e casas antropomórficas se agrupam numa galeria de personagens que remete ao imaginário medieval. A série de reis e rainhas (o rei pode ter cabeça de leão ou de passarinho), antagoniza com a de torres e casas anímicas, que assumem a forma também de gente ou de bichos híbridos. Essas figuras, emblemáticas, são chapadas, reiterando a bidimensionalidade. Sua organização no espaço combina a sensibilidade geométrica com o aspecto naïfe. Os ritmos lineares criam texturas; os detalhes precisos em cores primárias surpreendem. O artista dialoga tanto com a gravura popular de J. Borges e a moderna de Gilvan Samico quanto com o design gráfico do cartaz de publicidade. Derlon Almeida encena, num cordel mudo, com humor, um jogo ou batalha de que, como uma peça ou um contendor, somos convidados a participar, decifradores encantados de seus signos mágicos.

Fernando Gerheim

Para a exposição Derlon na Artur Fidalgo galeria